agosto 29, 2004

Abortos versus abortos

Os abortos governamentais levaram a melhor sobre os potenciais abortos que viessem a ser realizados pela organização “Women On Waves”, pelo menos por agora.
Em nome de uma pretensa legalidade, bastante discutível, foi negado um direito fundamental – o direito de livre circulação. A argumentação de ambos os lados vai agora passar por questões jurídicas nacionais e internacionais.

No entanto, o âmago da questão é outro e muito mais importante:
A passar das marcas vai a sem-vergonha e hipocrisia moral de governantes que proíbem a livre circulação, em nome de um pretenso caso de saúde pública, mas que têm levado a cabo uma política que, cada vez mais, restringe o acesso aos reais cuidados de saúde a que toda a população nacional deveria ter direito, segundo a Constituição, política essa traduzida, na prática, pela crescente imposição do principio: quem quer saúde, pague-a. (Pague as radiografias, as análises, os tac`s, os especialistas que não existem nas “caixas”, os dentistas e caríssimos tratamentos dentários, os remédios cada vez menos comparticipados, pague tudo ou fique por aí, desdentado, com dores e mazelas, a morrer devagarinho por falta de dinheiro...).

Voltando à hipocrisia dos políticos e governantes retrógrados que por cá temos, que se saiba não existe qualquer restrição à circulação das mais endinharadas que queiram deslocar-se a Badajoz para, em clinicas particulares, serem sujeitas às práticas que no “Barco do Aborto” são classificadas como ilegais pelas autoridades portuguesas.
Não se compreende, nem revela raciocínio inteligente, que aqueles que rotulam de crime a opção pelo aborto, em nome do direito à vida, não tenham a mesma atitude noutros casos, a guerra por exemplo, e inclusive protagonizem acções de apoio aos beligerantes. É provavelmente em nome de certos “valores morais”, em que os fins justificam os meios!!!

Outro aspecto grave nesta questão é a falta de liberdade: A liberdade de cada um decidir, em última instância, aquilo que julgar melhor para si.
Não se compreende que quem diz combater todas as formas de totalitarismo venha agora impor a sua vontade a terceiros, em nome da sua particular e retrógrada filosofia de vida, baseada em conceitos morais de forte influência religiosa, ditando regras sobre quando e onde começa e acaba a vida humana, sem fundamentação científica, e, por último, arvorando-se em juiz de toda a população.

Num país que se debate com graves problemas económicos era bom que não se desperdiçassem recursos. Os esforços consumidos com os casos em volta deste tema eram certamente muito melhor empregues na luta contra a sida e outras doenças sexualmente transmissíveis. Estas, como muitas outras que infelizmente continuam a contaminar largas camadas da população, são os verdadeiros casos de saúde pública.
Mas tal como um doido nunca se assume, um aborto também nunca se assumirá.....

Publicado por vmar em agosto 29, 2004 10:45 PM
Comentários

Para os abortos governamentais o direito à vida é selectivo - é evidente que a vida de um iraquiano, por exemplo, vale muito menos. Aí, pelo contrário, os iraquianos são "libertados" do fardo desta vida à lei da bala. Pulhas.

Afixado por: ognid em agosto 29, 2004 10:58 PM

A vida que alguns dizem defender, é apenas aquela, que por enquanto, não lhes faz frente.

Afixado por: jgonçalves em agosto 29, 2004 11:58 PM